Fala, pessoal!
Estou aqui pra causar uma provocação no mundo da seis cordas. Por que não temos mais Kiko Loureiros no Brasil?
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| Dystopia Tour 2016 |
Kiko Loureiro, pra quem não conhece, é um virtuoso guitarrista brasileiro integrante da banda norte americana Megadeth. Sua carreira foi construída com base em dois pilares: no ensino de guitarra e no sucesso de suas habilidades guitarrísticas demonstradas nos álbuns de sua banda inicial, o Angra e em seus álbuns solo. Kiko sempre esteve presente em revistas especializadas sendo considerado um dos quatro melhores guitarristas do mundo pela revista japonesa Burn!. Fez milhares de fãs e continua investindo no ensino de guitarra e no businees na área da música sem contar as suas turnês pelo mundo. Os resultados alcançados por Kiko são inquestionáveis e aí que sobra a seguinte pergunta: por que o Brasil tem tão poucos guitarristas de sucesso em comparação com os EUA? Se compararmos com os bons guitarristas americanos, o número de virtuosos brasileiros é imensamente menor. A lista de guitar heros nos Estados Unidos dá pra preencher várias páginas e seus respectivos trabalhos são vastos e alguns geraram livros e documentários. Como seria a explicação da capacidade de um país exportar tanto material criativo nesse sentido enquanto que em nosso país são poucos os que produzem conteúdo de qualidade?
Uma boa resposta se refere a elevada quantidade de bandas americanas que fazem sucesso no cenário do rock e heavy metal. O número de guitarristas de destaque nessas bandas é proporcional a quantidade de bandas. Ou seja, quanto mais bandas um país tem, mais guitarristas se destacam. Isso pode explicar em parte este fenômeno, mas ainda restam perguntas. Então, por que o Brasil não tem tantas bandas de rock e heavy metal com músicos se destacando? A hipótese mais provável aponta para os bloqueios do idioma. O rock e o heavy metal são estilos tradicionalmente cantados em inglês desde o seu surgimento. É bem baixo o volume de bandas que cantam em seu idioma materno e conseguem algum nível de sucesso fora de seu próprio país. Mas é aí que se complica a situação, pois temos muitas bandas de rock que cantam em português, porém seus músicos não se destacam e não presenciamos virtuosismo por parte deles. As músicas que "emplacam" são sempre as que tem como pretensão estourar nas paradas. Aquelas cujo refrões grudam como chiclete. Essas feitas com uma fórmula pra fazer sucesso que desaparecem tão rápido quanto surgem. Essa cultura do Brasil, de querer retorno rápido e seguir os modismos do momento, pode refletir a volatilidade do público brasileiro. Sendo assim, por que ainda lotamos os estádios para assistir as bandas gringas? A resposta é simples: temos um enorme potencial para desenvolver dentro do nosso país que vai de encontro com a indefinição do público. O público brasileiro está aí pra consumir musicas de qualidade e o faz quando o estilo é um sertanejo, axé, funk, forró, entre outros. Essa tradição inglesa de criar um estilo que exporte conteúdo como as bandas sérias de brit rock, rock 'n roll é deficitária no nosso país. Uma banda para se sustentar no Brasil precisa necessariamente, com raras variações, cantar em português. Temos uma indefinição quando o assunto é música brasileira fora do país. Carecemos de algum representante atual. Lembrem-se: atual. Pois os mestres da bossa nova e MPB fizeram isso com genialidade no passado. Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Toquinho, Chico Buarque, enfim. Estes sim representam até hoje nossa cultura e qualidade musical em qualquer canto do mundo, entretanto seus últimos lançamentos foram nas décadas de 80 e 90. Já se passaram 30 anos desde que paramos de exportar nossa música de qualidade. Caímos numa indefinição. Uma verdade há de ser dita. Fazer música de qualidade dá muito trabalho e leva muito tempo. Exige além disso uma virtude de não ceder às seduções do sucesso instantâneo, apesar de haver muitos músicos bons tocando estilos como sertanejo para sobreviver visto que, mesmo sendo um estilo que não lhes agrade, ainda sim está lhe proporcionando um trabalho na música. Está em contato com músicos.
Ressalto também que os instrumentos vendidos no Brasil são provenientes majoritariamente de outros países. Estes instrumentos são comprados (em dólar) pelas distribuidoras de equipamentos brasileiras. Então quando a cotação do dólar aumenta, invariavelmente a maioria das guitarras e baixos tem seu preço aumentado. Nos últimos anos vemos que o dólar apresentou aumento atrás de aumento ano após ano. Como consequência - atrelado a perda do poder de compra do cidadão de classe média - a venda de guitarras caiu drasticamente, salvo alguns períodos de melhora porém muito inferior aos anos de 2012 pra trás. Desde o início da década a renda média do brasileiro teve declínios e comprar uma guitarra pesa cada vez mais no orçamento. Ponto para os americanos que compram seus instrumentos em dólar.
Guitar Heros e a derrocada da Rock
Um ponto muito importante a se elucidar é o gênero do rock. O rock é a porta de entrada para a guitarra. É neste universo que a figura do guitarrista foi colocada em destaque e em posição importante dentro do conjunto. O rock foi responsável por lançar inúmeros artistas ao main streaming nas décadas de 70, 80 e 90. Nesse período muitos guitarristas construíram seu patrimônio, o que os levou a viverem vidas de verdadeiras celebridades. Quem nunca ouviu falar da história do Yngwie Malmsteen e sua coleção de Ferraris? Pois é, mas hoje quem é Malmsteen? Muita coisa mudou e esses famosos guitarristas tiveram que acompanhar a mudança. O Malmsteen por exemplo dá seu nome a modelos de pedal de guitarra e ele próprio faz a propaganda nas redes sociais. Outros grandes guitarristas das décadas de 80 e 90 fazem pequenos workshops excursionando ao redor do mundo em apresentações a grupos pequenos de pessoas para poderem sustentar sua profissão. Essa recolocação é parte do declínio global do rock que passou a ser considerado um gênero de nicho. Nunca antes o rock era tratado como música de nicho. Pelo contrário, era o estilo que ditava as tendências mundiais presentes no main streaming. As bandas fechavam contratos milionários com gravadoras o que os dava grande conforto na profissão. Isso tudo mudou com a internet. O streaming de músicas apareceu recentemente. É o mercado se adaptando com a invenção do streaming onde "ninguém" tem as músicas, mas todos podem ouvi-las desde que pagando uma assinatura mensal.
Apesar de todos esses efeitos negativos no mercado para o rock, os artistas, principalmente os estrangeiros, que pensam como se adaptar às mudanças mais rapidamente, tem buscado alternativas para conseguir se manter na profissão dentro da música. Mas isso ainda é muito difícil e grande parte perdeu a garantia de seu sustento.
Voltando a questão do Kiko Loureiro, penso que seu trabalho é digno de referência, então serve muito bem como base nesta análise. As hipóteses foram levantadas, mas ainda cabem mais explicações para o fenômeno de haver menos bons guitarristas aqui no Brasil e estas podem ser discutidas por horas. Por fim não seria justo de minha parte deixar de evidenciar o talento de Kiko Loureiro que galgou este posto e atravessou momentos de estagnação de sua própria banda com um mindset de olhar para fora e elaborar estratégias que elevariam sua carreira internacionalmente e o consolidariam neste mundo das seis cordas. E quanto a nós guitarristas em começo de carreira? Como podemos extrair bons resultados a partir de nossas condições atuais? Temos excelentes guitarristas no Brasil que estão fazendo bons trabalhos, porém ainda temos um mercado subdesenvolvido que consome altas quantidades de conteúdo importado. Isso é excelente e mostra o poder da globalização, entretanto nossa cultura também tem poder de exportar mais o nosso talento e conquistar o público consumidor mundo afora. Pensem sobre isso.
Abraços e até a próxima,
Stéfano Santana
