27 março, 2023

Opinião Sincera: Boss ME-50


Fabricante: Roland

Lançamento: 2002


Cada sessão de efeitos com seus knobs dedicados ME-50


A pedaleira Boss ME-50 foi lançada por volta de 2002 pela Roland. Considerada uma Multi Efeitos de entrada, ou seja, mais acessível e direcionada aos guitarristas amadores no início dos anos 2000, ela possui quatro seções de efeitos sendo distorção/overdrive, aí vale ressaltar que a modelagem utilizada é a COSM (Composite Object Sound Modeling) criada pela Roland, que permite obter uma enorme variedade de efeitos de distorção - desde os mais tradicionais até formas novas de distorção que a fabricante diz que eram impossíveis anteriormente -, modulação, delay e um pedal de expressão para controlar o volume, wah wah, whammy e mais 4 tipos de efeitos, cada um selecionado através de um único knob.

No painel traseiro, ela possui um Conector AUX IN, que permite você conectar outros dispositivos externos como um tocador de CD, um Ipod, celular, etc, através de uma conexão P2. Isso é bem interessante para você estudar repertórios, pois é possível mixar o som das músicas com os efeitos da pedaleira e o som sai pela mesma caixa ou amplificador.


Painel traseiro


Ainda no painel traseiro, existem 3 saídas, duas para amplificador estéreo (left e right) e uma terceira que é pre-amplificada para fones de ouvido. Durante um bom tempo eu utilizei essa saída de fone de ouvidos ligada direto no amplificador. Hoje em dia eu ligo a pedaleira em mono mesmo, utilizando somente essa saída da esquerda. O som fica menos saturado, mas mais autêntico. Aí vai muito do gosto de cada um. Se você quiser um som mais saturado, vale utilizar a saída pré-amplificada de fones de ouvido. Um detalhe legal é que você pode usar um cabo especial PCS-31 para mandar o som direto para o mixer, ou mesa de som, como a maioria conhece. Isso te permite tocar em lugares que possuem aparato de som como um PA, sem necessidade de um amplificador de palco.

Compartimento para pilhas 6 x AA

Na parte de baixo, ela possui um compartimento para pilhas do tipo AA, que é aquela pilha padrão mais comum no mercado. Ela é alimentada por 6 pilhas e, segundo o fabricante, você deve utilizar pilhas alcalinas, pois o consumo é relativamente alto se tratando de uma pedaleira. A duração é de cerca de 12 horas com pilhas alcalinas e 3,5 horas com pilhas de carbono.

Uma coisa que vale ressaltar nessa Multi Efeitos é a qualidade do chassi, já bem-conceituado no mercado em toda a linha de pedais e pedaleiras Boss. A sensação é de robustez, durabilidade e firmeza. As peças são bem encaixadas e continuam assim, mesmo após anos de uso. O fabricante não especifica o material utilizado. A fabricação pode variar entre aço inoxidável e alumínio. Para se ter uma ideia de robustez, ela pesa 3,150kg o que não é tão leve para uma pedaleira. Mas isso é ótimo para quem precisa de um produto confiável para levar para a estrada. Outro aspecto que chama a atenção é a cor azul cintilante, que se você olhar de perto é toda brilhante e você consegue ler bem todos os parâmetros. Não dá aquela sensação de não enxergar bem os escritos se você estiver em um palco um pouco escuro. Claro que uma iluminação adequada no palco é o ideal nesse caso. Essa multi efeitos nada mais é do que, como alguns dizem, uma caixa com vários pedais de efeito onde você consegue reunir os principais deles como overdrive/distortion, compressor, delay, reverb, pedal de expressão e ainda vem com um noise gate e um modulador de timbres de guitarra. Para você que gosta de strato como eu e precisa lidar com o chiado dos captadores single coil, o noise gate ajuda bastante.

 

A proposta dessa pedaleira é reunir os efeitos mais utilizados pelos guitarristas e ser de fácil manuseio. Ela não possui aqueles displays de LCD onde você acessa diversos parâmetros navegando em sub-menus, assim como a linha GT, por exemplo, mas a ideia aqui é ser o mais analógico possível. Ele possui basicamente 2 modos de utilização. O primeiro, que é o modo de fábrica chamado de “manual” acionado automaticamente quando você liga a pedaleira. Cada um dos 4 pedais funciona de maneira independente, assim como acontece quando você junta diversos pedaizinhos para montar um set de efeitos. Esse modo permite que você vá acrescentando os efeitos um a um, apenas pisando no pedal correspondente. Existe ainda a possibilidade de regular o parâmetro time do delay. Basta manter pressionado o pedal correspondente por dois segundos. A luz de delay começa a piscar, aí você vai marcando o andamento da música com as pisadas no pedal para que ele regule o time do delay. Isso funciona também para o pedal modulation. Você ainda consegue acionar o afinador, basta pisar nos dois primeiros pedais ao mesmo tempo que ela ativa um afinador analógico. Pessoalmente, eu acho esse modo o diferencial dessa pedaleira, visto que é tudo muito prático. Cada efeito possui um knob dedicado e analógico, basta girar o knob para obter mais ganho no overdrive, por exemplo. Ela sempre responde à posição atual dos botões. Os pre-sets não ficam salvos na memória.

O segundo modo chamado de “Memory é ativado quando você pisa no segundo e terceiro pedais ao mesmo tempo. Entra em ação os presets definidos pelo usuário e salvos no banco. São 30 bancos diferentes para você salvar suas configurações de efeitos. Isso pode ser um entrave para alguns guitarristas, pois pode ser meio limitado. Eu mesmo sinto falta de mais possibilidades de registro das configurações. Já tive que apagar muitas vezes alguns bancos para poder salvar um novo preset que timbrei.

Agora sobre as desvantagens. A coisa que mais me chateou nessa pedaleira é a engasgada que ela dá quando você troca entre os bancos no modo “Memory”. Pode parecer exagerado da minha parte, mas isso faz muita diferença quando você precisa mudar de um timbre limpo para um distorcido e vice e versa, ou qualquer mudança de efeito necessária durante uma execução. Essa “mutada” momentânea no som é bem desagradável pra performances ao vivo. Sempre que você troca o patch ela corta o som até carregar o novo efeito. É um dos motivos pelo qual eu estou querendo trocar de pedaleira, inclusive. Entretanto se você não liga para isso ou não tem essa necessidade de mudança rápida nos efeitos, bola para frente. Continua sendo uma tremenda pedaleira.

Uma coisa que também me incomoda na operação da pedaleira, é a forma de trocar entre os bancos no domo memory. Só é possível faze-lo por meio de pequenos botões “bank up” e “bank down” no painel. É possível selecionar o banco desejado, que vai de 0 a 9. O lado ruim é ter que agachar e digitar com os dedos essa mudança, já que é impossível você acertar com os pés esses dois botõezinhos de bank up e bank down e selecionar o patch desejado de 0 a 9. Realmente eles não pensaram em permitir esse acionamento com os pés, pelo menos não vindo de fábrica, já que a empresa oferece um footswitch a parte (FS-5U) que, ao ser conectado na entrada correspondente na parte traseira da pedaleira permite trocar os bancos no modo memory. No modo manual, esse pedal permite trocar os tipos de “tony modify”. É ainda possível adicionar mais um footswitch através de um cabo PCS-31. Nesse caso, esse pedal fica encarregado de alterar o tony modify e o outro ligar e desligar o compressor. No modo memory eles atuam para “subir” e “descer” os bancos. O preço é relativamente salgado. Você encontra um pedal novo FS-5U por R$350,00. É caro considerando que é um pedal de um botão que realiza apenas uma função. Poderia ter vindo de fábrica, né Roland? Falando do preço da ME-50, é possível encontra-la usada na internet por uma média de 1.200 reais com adaptador DC e bag (em 2007 eu paguei 1.000 reais a vista). O preço das coisas antigas vem subindo no mercado, não somente para o pessoal instrumentista, não é mesmo, caro amante de discos de vinil?

Pedal footswitch vendido separadamente



21 maio, 2020

Como gravar a sua música


Aspectos da gravação

Você já pensou em gravar sua música na sua própria casa? Saiba que isso é possível. Você pode alcançar bons resultados gravando em casa. Primeiramente vamos falar dos equipamentos necessários para a captação de áudio em home estúdio. Para montar sua estação de gravação você precisará deles (começando com uma configuração singela, econômica e eficaz).

6 Componentes para formar um home estúdio

Computador
Este é o principal equipamento do seu home estúdio. Ele será como o coração armazenando todas as informações registradas e processando os efeitos, basicamente. É recomendável você ter um desktop para utilizar em seu home estúdio, visto que os notebooks costumam ser menos estáveis e geralmente possuem um preço mais elevado se tratando dos mais potentes. Para você conseguir uma configuração similar a de um desktop você vai gastar muito mais, portanto pense bem na hora de adquirir um novo computador.
Uma boa configuração de computador para estúdio conta com um processador veloz - i5 pra cima, ou equivalente. Memória RAM - importante ter ao menos 6 GB. Um HD com bastante espaço disponível, não precisa ser muito grande mas precisa ter espaço disponível.

Placa de áudio/ Interface
Este componente é fundamental em razão captar todo o áudio que sairá do seu instrumento. O áudio passará por essa interface antes de ser entregue ao software de gravação no seu computador. Uma interface de 2 canais já é suficiente para gravações em casa. Existem marcas com o valor bem acessível no mercado e com ótima qualidade como as placas da M-Audio.

Interface M-Audio Air 192



Microfone
Microfones costumam ser aplicados a determinadas finalidades. Existe uma gama enorme de tipos de microfones dedicados a voz, bateria, percussão, instrumentos acústicos, gravação de voz, etc. Você deve pensar que o valor gasto em um microfone pode chegar aos milhares de reais. Então é fundamental equilibrar os gastos em seu home estúdio e pensar em um microfone que atenda a maior parte das necessidades de captação. O microfone SM57 da Shure é muito versátil e considerado o melhor nessa questão sendo utilizado até mesmo em estúdios profissionais por pessoas experientes. É raro você ir a estúdios de qualquer tamanho e não encontrar um SM57.

Software (DAW)
O software de gravação é outra parte essencial no home estúdio. Alguns são totalmente gratuitos e competem com software pagos no mercado. Um bom exemplo de software gratuito é o Reaper. Disponível no próprio site do desenvolvedor este software possui recursos bacanas e é constantemente atualizado.

Monitores de áudio
A medida que você adquire experiência com mixagem de áudio você vai perceber que o som varia muito de acordo com cada equipamento em que é reproduzido. Muitos experientes mixadores recomendam você ouvir o som em diversos dispositivos como o seu carro, no som da sala, antes de finalizar uma mixagem. Isso acontece pois os equipamentos tem equalizações e características diferentes. Portanto você pode achar que sua música está com falta de graves, porém ao reproduzi-lo em outro equipamento percebe que o grave está estourando. Para isso existem os monitores de referência. Eles reproduzem o som equilibradamente. São chamados flat ou seja você realmente vai ouvir através deles o som como ele é.
Também existem centenas de modelos no mercado com preços elevados e alguns mais acessíveis. As caixas multimídia da Edifier não são necessariamente monitores de áudio, porém devido à sua excelente relação custo benefício se tornaram populares entre os músicos. O áudio que você ouvirá nessas caixas é bastante fiel em termos de qualidade.

Fone de ouvido
Além de monitorar o som pelos monitores de referência é recomendado que você possua um fone de ouvido de qualidade. Novamente no mercado existem milhares de tipos. Vale pesquisar um tipo que seja indicado à monitoramento de áudio como referência para mixagem.

Bom, com esses equipamentos já é possível gravar e mixar uma porção de tipos de áudio e começar a fazer suas produções. Garanto que você ficará satisfeito com o resultado.

3 dicas para estruturar uma música

Agora é hora de gravar, certo? Mas será que minha música está pronta para ser gravada? A resposta pra essa questão vai economizar muito trabalho e vai gerar menos estresse na hora de gravar. Por isso antes de gravar pense em estruturar bem a música. Vamos falar sobre a forma da música.

Dica 1: formar partes. Todas as músicas possuem uma estrutura básica que poderá ser dividida em: introdução, verso, refrão, ponte, solo, verso e refrão. Lembrando que essa é uma sugestão de estrutura que pode variar bastante com o gênero escolhido. Uma música clássica terá uma estrutura mais complexa, por exemplo. Toda sinfonia clássica é dividida em quatro partes: os chamados "movimentos" que são caracterizados por andamentos e emoções diferentes dando dinâmica e sustentação necessária para a música ter mais de uma hora de duração. Cada movimento tem sua função dentro da história que está sendo narrada pela música. E é assim que funciona na música popular também, embora com outros nomes e de maneira mais breve.
Quis falar sobre estrutura para que você possa ter organizado em mente a estrutura da sua música. Seja um cover ou uma canção própria, esta estrutura estará presente.

Dica 2: tomar decisões. Não é algo muito agradável, mas faz parte do processo de produção musical e é fundamental para você finalizar uma obra. Por isso é muito importante definir bem cada parte da música e tomar decisões de cortar algo ou tomar um caminho e assumi-lo sem julgamento. Isso faz parte da arte. Para fazer sentido como uma peça completa precisamos escolher um caminho. Não importa se sua música terá trinta minutos ou três minutos, estando bem estruturada ela soará agradável aos ouvidos.

Dica 3: criar uma história. O fio condutor que unirá as partes ou movimentos é a história. Na música instrumental a história é tão presente quanto na música cantada. Ela fará com que a mensagem seja melhor compreendida e despertará interesse nos ouvintes. Boas músicas e sinfonias costumam trabalhar com os sentimentos das pessoas. Passando de tristeza, reflexão, alegria, calmaria, etc. As músicas memoráveis são capazes de contar uma história somente com as combinações de seus instrumentos, andamentos e intenções sem ao menos ter uma letra cantada. Músicas desse tipo se tornam maiores do que a simples soma da letra mais os arranjos. A história contribui de maneira trivial para a compreensão da canção.

Bateria e/ou percussão

Após ter feito a estrutura da música, você finalmente chegará à etapa de gravá-la. Para tanto é importante dividir o trabalho, a começar pela bateria/percussão, caso exista. Em estúdios profissionais é comum o baterista ser o primeiro a registrar suas partes. Para realizar a gravação é realizada a chamada "guia" que é gravada geralmente por baixo, guitarra, violão, voz ou teclado para que o baterista tenha orientação dos momentos em que mudará o ritmo, fará uma virada, fará determinado groove, etc. Essa guia não precisa estar impecável, lembrando que é somente para orientação já que o metrônomo estará presente para marcar bem o andamento.

Baixo, guitarra, violão, teclado e voz

Finalizando a bateria, chega a hora dos de base. Não há exatamente uma regra para gravá-los, entretanto o que vemos normalmente é a gravação na seguinte sequência: baixo, guitarra e/ou violão, teclado, cordas e por último a voz. Vale lembrar que diversas camadas do mesmo instrumento podem ser gravadas para dar mais corpo ao arranjo. Por exemplo gravar duas vezes a mesma base de guitarra para distribuí-la melhor na mixagem.

Muitas ideias surgem a medida que os instrumentos vão sendo adicionados e a estrutura sedimentada. Esse efeito gerado permite que sejam inclusos mais instrumentos, dobras, vozes, tudo aquilo que faz a "maquiagem" da música, lembrando que são complementares e inclusos por último.

Mixagem: um tema a parte

Bom, agora que todos os "ingredientes" foram selecionados é hora de dosar a quantidade e colocar cada um em seu devido lugar. Esse é o papel da mixagem que é um tema extenso de outro universo na música. Vale lembrar que estamos falando dos aspectos do home estúdio para iniciantes. Todas as vezes que você for começar algo terá muitas dúvidas, mas é importante finalizar e lançar o conteúdo mesmo com dúvidas pois, isso te dará experiência para suas próximas produções. O próprio resultado de se ter algo terminado propicia aprendizagem e um feedback positivo, sem mencionar o retorno que outras pessoas te darão que poderá acrescentar ideias às suas futuras canções.

Espero ter contribuído com sua formação neste universo de gravações e produções musicais. Tomei a liberdade de suprimir detalhes como posições de microfone, níveis de sinal, acústica e tantos outros que compõe e influenciam o timbre e demais características do som. São assuntos que geram um outro texto no blog. Espero poder falar disso no futuro. Até lá!





17 abril, 2020

Por que não temos mais Kiko Loureiros no Brasil?


Fala, pessoal!

Estou aqui pra causar uma provocação no mundo da seis cordas. Por que não temos mais Kiko Loureiros no Brasil?


Dystopia Tour 2016



Kiko Loureiro, pra quem não conhece, é um virtuoso guitarrista brasileiro integrante da banda norte americana Megadeth. Sua carreira foi construída com base em dois pilares: no ensino de guitarra e no sucesso de suas habilidades guitarrísticas demonstradas nos álbuns de sua banda inicial, o Angra e em seus álbuns solo. Kiko sempre esteve presente em revistas especializadas sendo considerado um dos quatro melhores guitarristas do mundo pela revista japonesa Burn!. Fez milhares de fãs e continua investindo no ensino de guitarra e no businees na área da música sem contar as suas turnês pelo mundo. Os resultados alcançados por Kiko são inquestionáveis e aí que sobra a seguinte pergunta: por que o Brasil tem tão poucos guitarristas de sucesso em comparação com os EUA? Se compararmos com os bons guitarristas americanos, o número de virtuosos brasileiros é imensamente menor. A lista de guitar heros nos Estados Unidos dá pra preencher várias páginas e seus respectivos trabalhos são vastos e alguns geraram livros e documentários. Como seria a explicação da capacidade de um país exportar tanto material criativo nesse sentido enquanto que em nosso país são poucos os que produzem conteúdo de qualidade?
Uma boa resposta se refere a elevada quantidade de bandas americanas que fazem sucesso no cenário do rock e heavy metal. O número de guitarristas de destaque nessas bandas é proporcional a quantidade de bandas. Ou seja, quanto mais bandas um país tem, mais guitarristas se destacam. Isso pode explicar em parte este fenômeno, mas ainda restam perguntas. Então, por que o Brasil não tem tantas bandas de rock e heavy metal com músicos se destacando? A hipótese mais provável aponta para os bloqueios do idioma. O rock e o heavy metal são estilos tradicionalmente cantados em inglês desde o seu surgimento. É bem baixo o volume de bandas que cantam em seu idioma materno e conseguem algum nível de sucesso fora de seu próprio país. Mas é aí que se complica a situação, pois temos muitas bandas de rock que cantam em português, porém seus músicos não se destacam e não presenciamos virtuosismo por parte deles. As músicas que "emplacam" são sempre as que tem como pretensão estourar nas paradas. Aquelas cujo refrões grudam como chiclete. Essas feitas com uma fórmula pra fazer sucesso que desaparecem tão rápido quanto surgem. Essa cultura do Brasil, de querer retorno rápido e seguir os modismos do momento, pode refletir a volatilidade do público brasileiro. Sendo assim, por que ainda lotamos os estádios para assistir as bandas gringas? A resposta é simples: temos um enorme potencial para desenvolver dentro do nosso país que vai de encontro com a indefinição do público. O público brasileiro está aí pra consumir musicas de qualidade e o faz quando o estilo é um sertanejo, axé, funk, forró, entre outros. Essa tradição inglesa de criar um estilo que exporte conteúdo como as bandas sérias de brit rock, rock 'n roll é deficitária no nosso país. Uma banda para se sustentar no Brasil precisa necessariamente, com raras variações, cantar em português. Temos uma indefinição quando o assunto é música brasileira fora do país. Carecemos de algum representante atual. Lembrem-se: atual. Pois os mestres da bossa nova e MPB fizeram isso com genialidade no passado. Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Toquinho, Chico Buarque, enfim. Estes sim representam até hoje nossa cultura e qualidade musical em qualquer canto do mundo, entretanto seus últimos lançamentos foram nas décadas de 80 e 90. Já se passaram 30 anos desde que paramos de exportar nossa música de qualidade. Caímos numa indefinição. Uma verdade há de ser dita. Fazer música de qualidade dá muito trabalho e leva muito tempo. Exige além disso uma virtude de não ceder às seduções do sucesso instantâneo, apesar de haver muitos músicos bons tocando estilos como sertanejo para sobreviver visto que, mesmo sendo um estilo que não lhes agrade, ainda sim está lhe proporcionando um trabalho na música. Está em contato com músicos.
Ressalto também que os instrumentos vendidos no Brasil são provenientes majoritariamente de outros países. Estes instrumentos são comprados (em dólar) pelas distribuidoras de equipamentos brasileiras. Então quando a cotação do dólar aumenta, invariavelmente a maioria das guitarras e baixos tem seu preço aumentado. Nos últimos anos vemos que o dólar apresentou aumento atrás de aumento ano após ano. Como consequência - atrelado a perda do poder de compra do cidadão de classe média - a venda de guitarras caiu drasticamente, salvo alguns períodos de melhora porém muito inferior aos anos de 2012 pra trás. Desde o início da década a renda média do brasileiro teve declínios e comprar uma guitarra pesa cada vez mais no orçamento. Ponto para os americanos que compram seus instrumentos em dólar.

Guitar Heros e a derrocada da Rock
Um ponto muito importante a se elucidar é o gênero do rock. O rock é a porta de entrada para a guitarra. É neste universo que a figura do guitarrista foi colocada em destaque e em posição importante dentro do conjunto. O rock foi responsável por lançar inúmeros artistas ao main streaming nas décadas de 70, 80 e 90. Nesse período muitos guitarristas construíram seu patrimônio, o que os levou a viverem vidas de verdadeiras celebridades. Quem nunca ouviu falar da história do Yngwie Malmsteen e sua coleção de Ferraris? Pois é, mas hoje quem é Malmsteen? Muita coisa mudou e esses famosos guitarristas tiveram que acompanhar a mudança. O Malmsteen por exemplo dá seu nome a modelos de pedal de guitarra e ele próprio faz a propaganda nas redes sociais. Outros grandes guitarristas das décadas de 80 e 90 fazem pequenos workshops excursionando ao redor do mundo em apresentações a grupos pequenos de pessoas para poderem sustentar sua profissão. Essa recolocação é parte do declínio global do rock que passou a ser considerado um gênero de nicho. Nunca antes o rock era tratado como música de nicho. Pelo contrário, era o estilo que ditava as tendências mundiais presentes no main streaming. As bandas fechavam contratos milionários com gravadoras o que os dava grande conforto na profissão. Isso tudo mudou com a internet. O streaming de músicas apareceu recentemente. É o mercado se adaptando com a invenção do streaming onde "ninguém" tem as músicas, mas todos podem ouvi-las desde que pagando uma assinatura mensal.
Apesar de todos esses efeitos negativos no mercado para o rock, os artistas, principalmente os estrangeiros, que pensam como se adaptar às mudanças mais rapidamente, tem buscado alternativas para conseguir se manter na profissão dentro da música. Mas isso ainda é muito difícil e grande parte perdeu a garantia de seu sustento.

Voltando a questão do Kiko Loureiro, penso que seu trabalho é digno de referência, então serve muito bem como base nesta análise. As hipóteses foram levantadas, mas ainda cabem mais explicações para o fenômeno de haver menos bons guitarristas aqui no Brasil e estas podem ser discutidas por horas. Por fim não seria justo de minha parte deixar de evidenciar o talento de Kiko Loureiro que galgou este posto e atravessou momentos de estagnação de sua própria banda com um mindset de olhar para fora e elaborar estratégias que elevariam sua carreira internacionalmente e o consolidariam neste mundo das seis cordas. E quanto a nós guitarristas em começo de carreira? Como podemos extrair bons resultados a partir de nossas condições atuais? Temos excelentes guitarristas no Brasil que estão fazendo bons trabalhos, porém ainda temos um mercado subdesenvolvido que consome altas quantidades de conteúdo importado. Isso é excelente e mostra o poder da globalização, entretanto nossa cultura também tem poder de exportar mais o nosso talento e conquistar o público consumidor mundo afora. Pensem sobre isso.

Abraços e até a próxima,

Stéfano Santana